tirem os sapatos do lugar, dêem espaço,
o espectáculo está a decorrer com normalidade.
Deambulo com um casaco preto
e a cidade é umas das coisas necessárias
para que bata latas e portas e cabeças
e vire bem todos sobre a minha tristeza
de cinquenta cêntimos de paisagem
e uma esperança de águas-furtadas.
Procuro descansar muitas vezes,
entre elas, o olhar sobre bolas de luz,
fazer de conta que não sei como dizer
tirem o lugar daqui para ver no que dá.
Os silêncios calçam bastante mais
do que o tamanho da boca.
Este desespero mínimo de colmeia
no centro da barriga é exacto
e bebo o meu leite para fingir
que não estou, antes, a beber esse.
Porque é esse e não este
que me dá brancas e mata o ponto,
que manda a manhã das manhãs
como Daniel atirado à sua própria boca.
Agora sou eu e a inocência.
Não luto, bebo leite.
numa fonte com vista para o rio,
num rapaz encostado à parede suja
que pergunta quem sou, quem és
como pergunta num filme mudo
o dia à noite, a noite ao dia.
Uma adaga brilha por ti no bolso.
preparou-se pacientemente, sabe-lo,
a enrolar cigarros, a fazer tempo,
a fazer dos teus amigos os seus amigos,
dos teus assobios aqueles por que o cão,
se o tivesse, responderia a correr
por todas as orlas da grande praia.
Sabe de cor o teu verso preferido
e a hora exacta de o cravar no coração,
rápida e sem dor, embora sangre.
o sangue não é a prova, é a testemunha
que quis ficar para sempre, o gosto de ti dito
da maneira mais simples que já ouviste,
a vertigem da adaga a resvalar para o chão
depois de desferida.
O amor é lindo mas
são horas de fechar o bar,
são horas de te salvar um pouco, miúda,
de te levar daqui para bem perto da felicidade,
de retribuir todas as tuas esperas
com o melhor sorriso e uma Lisboa
que amanheça a céu aberto
num pernilongo vagar traçado,
dois cafés e só um copo de água,
um oásis no deserto das próximas manhãs,
de te salvar um pouco, de riscar os templos,
de prolongar a música além do minuto final,
de te mostrar a faixa escondida.
Subtraindo os cumprimentos e as fórmulas finais,
Inglaterra continuaria a ser uma ilha pequena
se comparada com os mares que o mar pudesse levar
na âncora de um morto içada por pirata de águas doces
mormente pareçam mar. É da angústia, expliquei.
Havia um suspiro próprio para esses dias
e tu não podias ouvir. Inglaterra abafava-os com os parques
e eu usava lenços nesses dias. O importante era a lua
que insistia em crescer ao contrário,
a favor da forma do nariz. Era muito importante
poder ajudar-te nesses dias a compor arranjos florais,
era a forma de me esquecer destas neurastenias
de estores baixos, mas não até ao fim. De frinchas.
Depois, poderia ir com as línguas de sogra do Carnaval
e fazer-te uma surpresa, mas não havia, nem nos chineses.
Era Dragão e Cabra e Cão também. O céu ameaçava sol,
sempre ameaçou. É por isso que quando sorrio
tu podes acreditar de novo na tua mamã,
quando te embalava e dava de mamar,
e eras o centro do mundo. É fácil agora, e sempre soubeste porquê,
falar que a Via Láctea é uma esperança que se depositou
sobre as nossas cabeças e que se choro, choro com razão.
Sou macaco, o guerreiro que viu a andorinha
na última trave do banco do jardim dizer hoje não voo.
A andorinha, obviamente que é uma mera ilusão,
uma asa partida como sete anos de espelhos.
Eu agora escrevo depressa. A telegrafia é a minha dor.
Tem muitos cortes. É paga a peso de ouro. É não nos termos.
É uma jarra de flores, 1967, pós-mortem, de pós astrais,
a fita negra de Dona Virginia e a sua palidez.
Perguntar-te com que então a tua beleza não se foi,
não irá nunca, está aí nesse papel todo rasurado
como um mapa do tesouro e uma incógnita,
um colarzinho de pérolas enfiadas, ano após ano,
pela madrinha e um triciclo contra a parede.
Ai, meu amor, que tontura, que tolices digo.
Os teus poemas ponho-os eu na parede
como uma adolescente de terceiro ciclo
portuguesa. Depois apago as luzes, ponho música,
atiro-me de costas para cima da cama e Vejo-os.
As inglesas colocariam o livro como um quadro.
Não se esqueça a nota bene de dizer por mim
que não é preciso ir às compras, há pão que chegue
e que os pintainhos fugiram todos
para o quintal da frente, os piratas. Fiquei emocionada.
Os nossos dedos também fogem para a vida.
que me ensine como resguardar palavras que nele escrevo
ou o emudecimento contigo de nossas facas em plumas,
a revigorar de um sopro todas as causas perdidas,
e a adormecer nessa dobra a vapor de cotovelo,
sem temer que deixe de fora a cauda de teu nome,
se é ela que me desce ao queixo pelo rosto,
que adivinha do mais sóbrio de pavão fémea
minha beleza de perfil em langor dourado
certos dias como um dedo que passa e fica.
Que me entrelace nos dedos um lápis branco
e venha delinear-me os olhos, que veja o que vejo.
Dias mortiços, bases de copos alagando a cozinha,
o grito dos frutos na terrina, o terraço peninsular,
as raparigas que não ouvem música
numa orquestra de silêncio dessalado.
E eu aqui no meio, num chorinho larval muito baixo,
rodeada por argolas de cebolas, translúcidos anéis,
teus milenares anéis de planeta a gravitar no quotidiano,
prostrada, de cotovelos na mesa, absorta, buraco negro,
no bruxoleio das sombras das cadeiras.
E lembrar-me que o tio chama a isto bicicletas paradas,
das que se usam na sua casa de baba, enquanto se dirige
de ferrinhos para se juntar à orquestra dos mosaicos.
Volto o olhar para o estampado do copo,
conto o tempo daqui ao fim do corredor,
do fim do corredor aqui,
reparo como o tecto vai descendo
para que fique hermeticamente fechado
o século que demora a levar a água aos lábios,
como se a mão do teu consentimento
pisasse o telhado e me viesse prensar
o pensamento num planisfério
e juntos entrássemos na gaveta
que a noite abriu às estrelas.


